1 ~ (Maio-junho 1983) A Sarça em Chamas . . .
Tentei entregar-me ao encanto da sinfonia orquestral, querendo validar as pessoas que acharam que o concerto seria uma ótima saída da rotina hospitalar, mas não consegui conter as lágrimas que corriam pelo rosto. Na hora do intervalo, nos demos por vencidos e David me levou do auditório para um parque próximo. Ele tentou me consolar mas as suas palavras só me deixaram frustrada e irada. Melhor dito, as palavras eram como faísca para a raiva que eu já guardava. Pedi um tempo a sós, e fui vagueando pelo parque, mal percebendo a beleza da noite calorosa.
“Se és um Deus de amor,” clamei angustiada, “por quê teve que morrer a pequena companheira de quarto da Karis? Como permites que crianças sofram? Não só a Karis, mas cada criança e nené naquele hospital? Se tu não te importas ou és impotente para sará-las, por quê deveria eu seguir-te? Por quê confiar em ti?”
Exausta, me joguei na grama. A visão de minha filhinha de seis semanas de idade, ligada a soros e monitores, com sonda no nariz e catéter no peito, uma recém-construída ileostomia do lado de uma grande incisão cirúrgica no pequeno abdômen, inseriu-se na minha mente cada vez que eu tentava parar de chorar. Eventualmente acalmei-me, e ouvi uma voz falando para mim. Era tão vívida e real que levantei da grama e olhei para todos os lados tentando ver quem estava ali. “Nunca te deixarei nem te abandonarei,” disse a Voz. “Mas se você virar as costas para mim, não sentirá a minha presença contigo.”
Só isso, mas eu sabia que Ele ainda estava lá, aguardando a minha decisão. Ele não havia respondido ao meu desafio raivoso, nem me dado respostas às minhas perguntas. Por longos minutos sentei lá na grama, lutando com emoções fortíssimas, querendo sobretudo que minha filhinha fosse sarada. Mas eu estava sem ferramentas para barganhar. Tive apenas que fazer uma escolha simples: confiar, ou virar as costas. Confiar sem entender e sem nenhuma promessa a não ser a promessa de sua Presença comigo. Ou então nutrir a minha raiva e ressentimento e permitir que amargura começasse a enfiar-se dentro do meu coração. Se eu virasse as costas para Deus, minha filha morreria mesmo assim, e eu ficaria destituída tanto dela como dEle, o Deus que havia conhecido e tentado seguir a minha vida toda.
Ele ainda aguardava a minha escolha. “Senhor,” eu disse finalmente, “quero confiar em Ti e seguir-Te, mas isso tudo dói tanto que sei que precisarei de muita ajuda. Não serei muito boa nisso. Por favor me ajude.”
Deitei-me novamente no chão e uma série de imagens passaram uma por uma pela minha mente, cada uma consolidando a minha crescente convicção de que Deus estava conosco. Ele se importava e se envolvia. A beleza da minha filha à primeira vista, nascida gordinha para sobreviver os dias seguintes sem nutrição. A facilidade do parto, que me permitiu investir energia a mais a seus cuidados. A minha mãe, chegando no país na hora em que precisávamos da sua ajuda, para cuidar da Karis enquanto eu me internava com uma infecção pós-parto. Meu pai, vendo a Karis pela primeira vez, mandando-me levá-la imediatamente para o médico. A maneira engraçada em que Dr. W virou nosso aliado, quando Karis vomitou leite amarelo encima dele. A encaminhada dele para o Dr. R no hospital pediátrico da cidade de Chicago—um cirurgião conhecido no mundo inteiro, aquele que escrevia os livros de referência. A arrogância do Dr. R sendo humilhado conforme as semanas passavam sem solução do problema da Karis. O primeiro catéter central às três semanas de idade para que ela pudesse ser nutrida através das veias, já que os intestinos eram como órgãos mortos. A persistência do Dr. R em seguir dicas num artigo em jornal médico escrito por um cirurgião japonês, que levou a Karis para a mesa de cirurgia às cinco semanas de idade e a diagnose de “hipoganglianose” com análise de biópsias—significando que Karis tinha poucos nervos intestinais e os que tinha eram mal-formados, não permitindo motilidade do intestino. A convicção de Dr. R de que deveríamos deixá-la morrer. A nossa convicção mais forte de que deveríamos apoiá-la em vida enquanto possível fazê-lo e que não era direito nosso decidir assuntos de vida e morte. A garra e determinação da Karis, que enfermeiras experientes comentavam desde os primeiros dias de sua vida. O charme dela, a sua confiança em nós. A delícia de seus sorrisos e sua alegria, pequena como era, e a conquista que ela já havia feito de nossos corações. O nosso pedido aos médicos para levá-la para casa, mesmo dependente de NPT, o que de início os médicos recusaram mas com nossa insistência reavaliaram para dar-nos a sua resposta na próxima semana. A disponibilidade de nossa igreja para ir até Chicago e orar pela Karis no próximo dia, o sábado.
Pouco a pouco, veio um sentimento de paz, de que a Presença de Deus era suficiente. Suficiente para esta noite. Suficiente para que eu pudesse ir para casa com o meu marido, me deixar dormir. Suficiente para que deixasse as preocupações de amanhã para o amanhã. Suficiente.
