Adorando a Deus no Deserto
                 Reflexões sobre nossa jornada

ADDs

7 ~ (1986-87) Libertação

Chegando aos três anos de idade, a aparência da Karis nos lembrava fotos das crianças morrendo de fome na África: barriga enorme, braços e pernas como palitos, aquela sombra de derrota nos olhos. Nossa menina alegre, vibrante, dançante estava acabada, sem energia. Ela não reclamava e não chorava em voz alta, mas passava as horas deitada no sofá, chupando o dedo com lágrimas correndo silenciosamente pelo rosto. Dr. P nos orientou para não preocuparmos com o chupar do dedo, pois ela sofria dores constantes e precisava de qualquer consolo disponível. Karis tirava o dedo da boca só para mudar de posição e então inserir o dedo da outra mão. Ela comia apenas Pregestimil (de alguma forma ela conseguia ingerir aquele leite horroroso!), frango cozido sem gordura, e iogurte. A avó dela lhe trouxe da Etiópia uma colher especial para comer iogurte, que só ela foi permitida usar.

Numa época difícil perto do terceiro aniversário quando a Karis não tolerava comida alguma, uma enfermeira ofereceu-lhe um “milkshake” de morango, “como no McDonald’s”. Karis se animou—até sentir o primeiro gole do que na verdade era contraste colorido cor-de-rosa. Ela jogou o copo inteiro encima da enfermeira (uma chatice merecida, na minha opinião!). Se a enfermeira houvesse falado para Karis que o contraste teria sabor de giz, a Karis teria achado coragem para bebé-lo. Do jeito que ficou, tiveram que segurar a Karis e enfiar uma sonda pelo nariz para conseguir que o contraste chegasse ao estômago, um processo miserável para todos. Karis nunca tolerava mentiras e enganos!

Os raios-x com contraste mostraram o intestino tão inchado que nós nos preocupamos que ele pudesse furar, como uma bexiga. Diarréia corria do corpinho dela como água. Às vezes ela pôde tomar soro na clínica de nossa cidade para evitar internação por causa de desidratação, mas na maioria das vezes não era o suficiente para reverter o quadro e ela teve que internar. O peso e altura dela nem constavam no gráfico de crescimento da idade dela. Karis se fechou dentro de si e virou uma sombra da menina que conhecíamos.

Nossa nova igreja na cidade de Port Huron nos apoiou de formas maravilhosas, cuidando das outras crianças quando Karis ficava internada, ajudando com alimentos, limpeza da casa e outros assuntos práticos. Eles praticavam o que chamavam de “oração banho-maria”. Membros da equipe de intercessão vieram orar por ela em casa durante a semana, além de tempos de oração especiais na igreja aos domingos.

Mesmo com tanta bondade, cheguei ao ponto de não tolerar mais as freqüentes viagens do David. Deus graciosamente providenciou emprego para ele em Detroit, uma hora distante, e ele pôde então estar em casa conosco todas as noites. O novo escritório dele encontrava-se do lado do hospital das crianças onde Karis sempre internava! Mais uma vez a Ronald McDonald House se tornou o nosso segundo lar.

Dr. P não sabia o que fazer para que Karis melhorasse, tampouco os outros médicos a quem ele consultou. Finalmente, no início de outubro, Dr. P nos disse que queria tentar mais uma cirurgia, para retirar mais uma parte do intestino e criar uma nova ileostomia. Ele nos disse que não poderia prometer que isso a ajudaria, mas era a única opção que ele conseguia cogitar e ela não poderia continuar por muito tempo do jeito que estava. Eu não gostei nada desta idéia. Fazer a Karis passar por mais uma cirurgia invasiva sem garantia nenhuma, só porque o médico não conseguia pensar em outra opção? Não, obrigada.

David, porém, gostava da idéia de fazer alguma coisa, em vez de simplesmente deixá-la morrer. Um domingo decidimos abrir nosso dilema para a igreja e pedir que procurassem orientação de Deus junto conosco. Oraram por uma semana. O próximo domingo a igreja expressou a convicção unânime de que deveríamos proceder com a cirurgia. Mesmo assim eu disse não, até que David me perguntou porquê eu havia concordado em levar o assunto para a igreja se não fosse aceitar o que ele tinham a nos dizer. Sem ânimo me submeti e Karis ficou internada, tomando NPT por várias semanas para fortalecer-se o suficiente para tolerar a cirurgia, que aconteceu no início de dezembro.

Testemunhando o que aconteceu com a Karis nos próximos meses foi uma das experiências mais inéditas da minha vida. Ela se recuperou da cirurgia tão rapidamente que recebeu alta antes do Natal. Ela começou a comer—todos os tipos de comida. Começou a crescer, tão rápido que eu mal conseguia suprir roupas que coubessem nela. Dentro de quatro meses a Karis cresceu dez centímetros e engordou quatro quilos e meio. A altura e o peso cabiam novamente no gráfico de crescimento. A energia voltou e logo ela estava correndo e brincando com as outras crianças, conquistando as habilidades que lhe faltavam para ficar a par de outros da mesma idade. Ela desabrochava como uma flor na chuva de primavera.

De vez em quando, Karis corria para me encontrar e exclamava, maravilhada, “Mamãe, não dói nada!”

Uma manhã maravilhosa no final de abril, 1987, olhei pela janela acima da pia da cozinha aonde lavava as louças e vi nosso filho de cinco anos, Danny, ensinando a Karis a andar na tricicleta velha dele. Enquanto observei, ela veio pedalando, tranças loiras batendo nos ombros. Tive a estranha sensação de haver visto isso antes . . . De repente, me lembrei, e os joelhos ficaram trêmulos. Até chegar ao telefone para ligar para o David, lágrimas já corriam pelo rosto. Era aquela antiga visão de nossa amiga Jan, concretizando-se após tanto tempo que parecia outra vida.

Nós morávamos numa casa de cor cinza. Karis completou os seus quatro anos poucos dias depois.

“David,” eu disse pelo telefone, “podemos nos mudar para o Brasil.”


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