8 ~ (1987-92) Manã e Codornizes
O Brasil conquistou o coração do David desde a primeira visita, em 1984. Nascido na Bolívia, David sempre planejava voltar a morar num país da América Latina de fala espanhola. Mas o Brasil foi como ímã para o David. Ele inventou uma razão ou outra para visitar pelo menos uma vez por ano. Na providência de Deus, levaria mais seis anos para mudarmos para lá, pois não era possível enquanto Karis estava tão doente. Após aquela surpreendente manhã da tricicleta em abril de 1987, sentimos que Deus havia nos liberado para procurar uma missão com a qual pudéssemos trabalhar no Brasil. Para nós, era importante que essa missão valorizasse trabalho em equipe, com prestação de contas, e que valorizasse o bem-estar da família.
Uma das minhas irmãs e o seu marido estavam entusiasmados a respeito da missão deles, a OCI, portanto em janeiro de 1988 o David e eu (oito meses e meio grávida da Valéria!) fomos até Califórnia para investigar a OC International (o nome usado pela Sepal nos EUA). Numa entrevista expressei o medo da Karis adoecer novamente e não tivermos os recursos necessários para cuidar dela. Me responderam que a OCI nos apoiaria no cuidado de todos os nossos filhos. Isso nos deu confiança para fechar com a OCI e começar o processo de treinamento, de levantar sustento e parceiros de oração e procurar vistos no consulado brasileiro em Chicago.
Nossa equipe de apoio se firmou rapidamente e começamos a fazer as malas, esperando chegar em São Paulo a tempo para que Daniel e Karis pudessem ingressar na PACA (Escola Cristã Pan Americana) no início do ano escolar, em agosto de 1989. Mas o processo de adquirir os nossos vistos demorou—demorou—demorou. Vivíamos com tudo meio-empacotado, prontos para marcar a viagem na hora que Brasil nos desse uma luz verde.
Durante este período de espera, Karis estava crescendo e desenvolvendo-se normalmente, adquirindo várias habilidades e interesses e mostrando para nós, de vez em quando, a sua força de personalidade e algo de seu caráter. Um dia na pre-escola, a sua bolsa de ileostomia soltou-se enquanto brincava com as outras crianças, criando uma situação de muita vergonha diante dos companheiros. Recuperando-se emocionalmente da zombaria dos colegas, Karis disse para mim, “Mãe, é que eles não entendem. A senhora pode voltar para a escola comigo e explicar para eles o porquê da minha ileostomia?” Ela mesma mostrou para as crianças algumas das suas cicatrizes e falou-lhes que eram sinais do amor de Deus, pois ela poderia haver morrido mas Deus usou médicos e cirurgias e negócios como a ileostomia para que pudesse viver.
Finalmente, em junho de 1990 (com todas as quatro crianças recuperando-se de catapora!), nos despedimos dos amigos em Port Huron e embarcamos para Miami e São Paulo. Daniel completaria nove anos no próximo mês. Karis estava com sete anos, Raquel cinco e Valéria, dois anos e meio.
No primeiro ano em São Paulo nos esforçamos para aprender o português, entender a cultura brasileira e cultivar amizades brasileiras. Já que tanto o David como eu fomos criados na América Latina, alguns ajustes eram mais fáceis para nós do que para os companheiros da equipe Sepal que até aí só conheciam a cultura norteamericana. Mas eu sofri com “choque urbano”. A cidade maior na qual vivi até aí era de cinqüenta mil pessoas e São Paulo hospedava vinte milhões! Dirigir na cidade me deixava trêmula de gratidão cada vez que eu chegava de volta em casa sem me acidentar, mas após algumas experiências difíceis nos ônibus com os meus filhos, preferi dirigir. Fofocas abundavam na época a respeito de seqüestro de crianças, principalmente as loirinhas.
Uma vez quando as crianças e eu andávamos perdidas na cidade (David estava em casa, mas não tínhamos telefone na época), Daniel me disse, “Não se preocupe, Mamãe. Entre todas as cidades do mundo inteiro, estamos na cidade certa!”
Naquele primeiro ano em São Paulo, morávamos num apartamento virando a esquina da sede da Sepal, mas isso significava para as crianças uma longa caminhada de ônibus até a PACA a cada dia. Resolvi procurar uma casa perto da PACA. Os corretores riram de mim quando descrevia o tipo de casa que eu queria e o valor que poderia pagar. Após vários meses de oração, porém, um corretor ligou e disse que havia achado a nossa casa—mas que não era casa, era um palácio! Deus nos deu esta casa grande perto da PACA pelo valor exato que tínhamos para gastar. Mudamos para lá no 19 de junho de 1991, o primeiro aniversário de nossa chegada no Brasil. A casa tem nos servido para vários propósitos ministeriais e morar tão perto da PACA foi prático para todos os nossos filhos. Para Karis, seria imprescindível nos anos vindouros.
O primeiro domingo após mudar para a nova casa, enquanto estávamos na igreja, Deus nos abençoou com um incêndio. Foi o quebra-gelo perfeito para iniciar relacionamentos com os nossos novos vizinhos! Eles apagaram o incêndio, evitando danos graves. Gratos, convidamos toda a vizinhança para uma festa de sorvete e nos tornamos amigos. Eventualmente iniciamos um estudo bíblico com os adultos e um clube bíblico com as crianças. Naqueles dias, apesar de ouvirmos freqüentes advertências a respeito de assaltos e roubos, as crianças da vizinhança ainda brincavam na rua enquanto as mães batiam papo. Todos da nossa rua cuidavam uns dos outros e ficamos abismados com a morte por assassinato do vizinho da frente. Dezesseis vizinhos se juntaram em nossa casa para procurar consolo em Deus. David escreveu para eles, e mais tarde publicou, uma série de livretos para usar em grupos pequenos.
Uma vez concluída a nossa mudança, David se entusiasmou com o seu trabalho, viajando freqüentemente para outras cidades no Brasil. Voltando um dia de Belo Horizonte, o carro escorregou-se numa curva e tombou pela montanha. Uma pequena árvore parou a queda e David se encontrou cabisbaixo, suspendido pela cintura de segurança, música de louvor ainda tocando alegremente na toca-fitas do carro, pensando “Débora vai me matar!” Um pastor graciosamente pagou para ele voltar para SP de avião, após tirar uma foto dele do jeito como emergiu do acidente, sangrando mas inteiro. Pedi que, daí para frente, ele viajasse de ônibus ou de avião em vez de se arriscar novamente naquela estrada—assim que, quando David viajava, eu pude ficar com o carro que compramos para substituir aquele destruído no acidente.
Deus cuidou de mim e das crianças em várias circunstâncias estressantes. Tenho uma coleção de histórias a respeito dos “anjos” que apareceram para nos ajudar: quando ficamos sem combustível; quando um pneu estourou, quando, vez trás vez, nos perdemos. Proteção no meio de algumas situações de assalto e roubo. Provisão quando o Plano Collor dificultava a nossa situação financeira, como era o caso de todos os nossos amigos brasileiros.
Pouco a pouco ficamos mais confiantes na comunicação em português e desfrutamos de amizades preciosas. As portas de ministério abriram-se para o David de forma que ele comentou para mim um dia, “Sinto que estou fazendo exatamente o que Deus me criou para fazer”. Trilhando terreno desconhecido, tivemos que depender absolutamente na provisão diária de Deus—e saboreamos a Sua fidelidade.
Nestes meses e anos de tantos desafios--preparando-nos para mudar para um novo país, a chegada em São Paulo e todos os ajustes necessários para adequarmos a uma cidade enorme, uma nova língua e cultura, novos amigos, escola, igreja e equipe missionária—desfrutamos de uma bênção enorme: boa saúde para Karis. Junto com os irmãos, ela pôde acostumar-se com português, os amigos brasileiros, e a sua nova escola e vizinhança. Deus deu a ela e a nós uma janela de seis anos no qual traçar uma enorme transição e firmar raízes em nossa nova pátria.
