Adorando a Deus no Deserto
                 Reflexões sobre nossa jornada

ADDs

9 ~ (novembro 1987) Pouco e Tarde

Intervalo, para uma história sobre crianças e vida familiar

(Eu cansei de escrever sobre assuntos sérios; talvez você também cansou. Segue um evento que lembrei quando estava escolhendo o quê deveria incluir no #8, Manã e Codornizes.)

Vamos chamá-lo Pouco e Tarde (novembro, 1987)

David viajou para Cingapura para participar de uma conferência e ficaria fora no feriado americano de Ação de Graças. Decidi também viajar com as crianças Comprei passagens de Detroit para Kansas City na línea aérea mais em conta, para visitar meus tios e a família com quem eu morei quando adolescente. Nosso amigo Steve se ofereceu para nos levar para o aeroporto (mais do que uma hora distante) e concordou em nos buscar com antecedência suficiente para que pudéssemos parar no McDonald’s para comer McLanches Felizes na ida, já que não seria oferecida comida no vôo. Eu estava sete meses grávida da Valéria. As outras crianças estavam com dois, quatro e seis anos.

A hora combinada chegou mas o Steve não. Os minutos corriam enquanto tentei achar o Steve. Quando finalmente ele apareceu, falando algo a respeito de haver perdido a hora, joguei as malas e as crianças dentro do carro e implorei o Steve para ser o mais veloz possível. Realmente não achei que fôssemos chegar a tempo e perderíamos as passagens e toda a nossa viagem para Kansas City.

Como era de se esperar, as crianças me lembraram que havia PROMETIDO o McLanche Feliz, o que normalmente reservávamos apenas para festas de aniversário. Tudo bem, Steve, a próxima vez que aparecer um McDonald’s sem fila de carros no drive-through , por favor compre três McLanches Felizes idênticos de viagem e vamos embora. Não, crianças, vocês não podem comer dentro do carro; espere até chegar no avião.

Chegando no aeroporto, freiamos tão bruscamente que até os pneus cantaram. Pulamos do carro e fomos correndo até o balcão, tarde demais para despachar as malas e falaram que a última chamada para o vôo já era. A senhora disse que pediria para que segurassem o vôo por mais cinco minutos. É claro que, sendo a linha aérea mais barata, o portão se encontrava na ala mais distante do balcão de check-in. Eu estava com Raquel no carrinho, segurando o seu McLanche Feliz, com malas penduradas pelas alças , uma bolsa e a mochila da Raquel no ombro e as outras duas crianças uma de cada lado, segurando a minha jaqueta com uma mão e os seus McLanches Felizes com a outra, com as suas pequenas mochilas nas costas. “Gente, precisamos CORRER,” gritei, enquanto que a senhora no balcão ficava olhando torto para nós e balançando a cabeça.

Então corremos, o fator limite sendo a velocidade das perninhas da Karis, desviávamos das pessoas e tentando não sermos atropelados pelos carrinhos do aeroporto, nenhum dos quais se ofereceu para nos ajudar. Logo nos deparamos com outro fator limite: as Cocas nos McLanches Felizes estavam vazando dentro das caixinhas bonitinhas, que estavam se desfazendo. Paramos só para colocar os outros dois no colo da Raquel junto com o dela, e Raquel segurou os três com aquele olhar de quem tem uma missão para cumprir. E fomos correndo novamente.

O portão, lógico, era o ultimo na ala, e sendo a linha aérea mais barata, quando chegamos descobrimos que teríamos que descer duas remessas de grades, sair por uma porta e atravessar o pátio para chegar no avião e depois subir as grades estreitas até o portão do avião. Pois é. Uma de dois anos, uma de quarto, um de seis, carrinho, malas, bolsa, mochilas e os preciosos McLanches Felizes (que já não estavam tão felizes), com a comissária de bordo nos dando aquele olhar de reprovação pelo nosso pequeno atraso.

Ela teve a bondade de deixar o portão do avião aberto até que entramos mas foi esse o limite da bondade. Enfrentamos um avião cheio de olhares hostis, as pessoas frustradas pelo atraso do vôo por nossa conta. E claro, sendo um vôo barato, não designaram os assentos. Os que sobraram estavam espalhados pelo avião. A comissária de bordo mostrou-os para mim mas não se esforçou para pedir que alguém trocasse de assento para que eu pudesse sentar do lado dos meus filhos. Depositei Daniel com o seu McLanche Aguado (pois agora havia Coca Cola espalhado por todo lugar) no primeiro assento, instruindo-o a não abrir a caixinha até após a decolagem. Repetimos a rotina com Karis no meio do avião e, lógico, o assento que sobrou para mim e a Raquel estava na última fileira.

Tive que estender o cinto de segurança até a sua extensão máxima para acomodar a mim mesma, o meu filho gestante e a Raquel. Nunca um cinto de segurança foi tão difícil de fechar. Quando consegui fechá-lo, a comissária de bordo, aliviada, iniciou a sua rotina enquanto o avião se movia lentamente, preparando-se para decolar. “Bem-vindos ao vôo “X” com destino a Des Moines . . .”

--uma inspiração coletiva de pânico!--

“Brincadeira, vamos a Kansas City . . .”

Inacreditável.

Logo que nos deixaram mexer, acomodei a Raquelzinha no nosso assento com as suas batatas fritas murchas, redimidas por aquelas gotas essenciais de catsup, andei desajeitada pelo corredor para ajudar a Karis com o seu hambúrguer afogado em Coca-Cola, disfarçando-o também com catsup tudo-perdoador, e finalmente até a frente do avião para ajudar o Daniel resgatar o que restava do seu brinde. Quando consegui chegar de volta na fila traseira, a Raquel, naturalmente, havia distribuído o catsup dela no limite de alcance dele. Limpei ela, fiz uma tentativa para limpar o chão e o assento, e tirei giz de cera e papel da mochila dela.

Novamente naveguei o corredor para arrumar a Karis e achar giz de cera e livrinho de colorir para ela. Depóis Daniel. Quando consegui depositar os restinhos dos lanches no lixo e atravessar o avião em direção à Raquel, já estavam avisando que era a hora de aterrizar. Voltei para Karis e então Daniel para segurar os cinturões e guardar os brinquedos nas mochilinhas. Mais uma vez de volta para tentar fechar o cinturão encima de nós três (bebê, Raquel, eu).

“Fique no seu assento até passarem todos os outros passageiros, e me aguarde,” havia enfatizado nas minhas instruções finais para Daniel e Karis. “Não se mexa!” Isto para Raquel enquanto colecionei todos os nossos pertences. Com os olhos da Karis e do Daniel fixos em mim, tentei montar novamente o arranjo de carrinho/Raquel/malas/bolsa/mochila, desta vez abençoadamente livre dos três McLanches Tristes. Uma voz veio pelo alto-falante, “Ninguém vai ajudar aquela senhora grávida com a sua creche?”

Mais um, como brinde:  

A Arca de Noé (uma tarde nevada, 1989)

Sentadas no sofá, estava lendo histórias para Karis, de cinco anos (que não estava se sentindo muito bem), a neném Valéria e prima Claire (de quarto anos). Daniel, com sete, estava fora brincado na neve. Meu marido David, como de costume, estava viajando, dessa vez numa ilha do Caribe. Raquel (com quatro anos) e a prima Sarah (de três) estavam brincando no andar de cima. (Nossa secadora, por acaso, estava quebrada. Este fato se tornou mais significante conforme a tarde desenrolou.)

A cabeça encaracolada da Raquel apareceu encima do corrimãos e ela perguntou, “Mãe, podemos brincar de Arca de Noé?”

As crianças possuíram um joguinho de Arca de Noé, com uma arca de plástico e pequenas figures plásticas dos animais e da família do Noé. Eu respondi, “Pode, querida,”--sem dar mais atenção à perguntinha que apareceu brevemente na minha cabeça sobre o porquê dela haver sentido que precisasse pedir permissão para brincar com aquele joguinho. Voltei para a leitura com as meninas do sofá. GRANDE ERRO. Eu era uma mãe experiente, não é, e já havia passado por múltiplas oportunidades para aprender que não se deve dar permissão sem certeza absoluta do conteúdo do pedido. Como aquela vez quando estava tomando chá e conversando com uma amiga e Daniel, com menos de dois aninhos, apareceu na porta da sala, olhou para mim e expressou algo que sem dúvida era uma pergunta. Eu disse, “Claro, querido,” e voltei a conversar com minha amiga. Daniel atravessou a sala e mordeu o meu joelho, com força. Quando gritei, ele olhou para mim todo inocente como se disse, “Mas Mãe, me disse que podia!” Mas será que eu fosse lembrar aquela sabedoria conquistada a tão alto custo, naquela tarde nevada do inverno de 1989? Não.

As menininhas saciadas de histórias, eu subi a escada para usar o banheiro e—você já adivinhou—no meu primeiro passo já senti o carpete todo ensopado Pois, como todos da família lembrarão para todo o sempre, não se pode brincar de Arca de Noé de verdade, não é, sem enchente. Também não esquecerei do lamento da Raquelzinha, “Mas Mamãe, a senhora nos disse que podíamos!”

Aquelas duas pequenas meninas acharam dois pequenos baldes entre os brinquedos de praia guardados no estante e trabalharam com uma persistência nunca vista antes nem depois para inundar todas as camas (menos o beliche de cima), o carpete e tudo que estava no chão. (Como foi que não escutei o som da água escorregando da banheira? Esta é uma das minhas perguntas de prioridade quando chegar no céu!)

Você vai lembrar agora, como eu lembrei, que a nossa secadora estava quebrada, meu marido viajando, e eu sozinha no pôr do sol gelado, com seis crianças e nem um pedaço de pano seco para usar como cobertor (fora a roupa de cama do beliche e cima). Como conseguimos dormir? Possuíamos dois sacos de dormir. Abertos um em cima do outro no chão do andar de baixo, serviam como colchão. Coloquei as seis crianças numa fileira acima dos sacos de dormir e a roupa de cama do beliche de cima por cima delas. Os travesseiros estavam todos molhados, menos o do beliche de cima, então me parecia justo que eu ficasse com o travesseiro, sendo que havia um travesseiro, um de mim e seis delas. Eventualmente pararam de mexer-se; dormimos todos. Sobrevivemos o enchente.

Como consegui secar tudo? Carpete, colchões, lençóis, fronhas, roupas, brinquedos, etc., etc.? Realmente não me lembro e nem quero saber, pois nunca espero repetir esta experiência. Mas de vez em quando, vendo um arco-íris, que lembra as promessas que Deus fez para Noé, lembro-me também de nosso enchente particular.


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