Adorando a Deus no Deserto
                 Reflexões sobre nossa jornada

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10 ~ (1993-1995) Mara e Elim

Enquanto o nosso avião, oriundo Bolívia, aterrizou em São Paulo um dia caloroso de janeiro em 1993, descobri para minha surpresa que estava feliz de estar de volta. Deus estava respondendo ao meu pedido de gostar de morar numa mega-cidade; não só tolerar, sobreviver. Pelo que entendíamos, Deus havia nos direcionado a morar em São Paulo a longo prazo, então eu queria sentir-me em casa.

Ao mesmo tempo, uma pequena preocupação competia com esta recém-descoberta felicidade: durante as últimas semanas de viagem na Bolívia, a Karis havia começado a vomitar novamente. Foi fácil culpar a mudança de comida e de água, ou então algum vírus que ela porventura pegou num ambiente diferente, mas eu sabia que estávamos querendo nos enganar. Nada disso justificava a cor verde do vômito nem a distensão de barriga e as dores que a Karis novamente sofria.

Na Bolívia, os meus sogros haviam juntado toda a sua família para celebrar o Natal, incluindo todos os netos: oito meninas e só o Daniel de menino. Visitamos Santa Cruz, Cochabamba, La Paz, o lago Titicaca e outros lugares fascinantes. (Ouvindo a língua espanhola pela primeira vez, Valéria, com quatro anos, escutou com bastante concentração e depois me perguntou, “Mamãe, porquê estão usando fala de ninar?”) Os meus sogros estavam preparando-se para aposentar-se do seu trabalho missionário em Cochabamba e voltar a morar nos EUA, então esta visita dos filhos (David, o seu irmão e irmã) aos lugares aonde haviam sido criados foi muito especial. Billy, o irmão do David, foi o primeiro a descobrir a Karis vomitando, nas horas escuras da noite, tentando não incomodar a família.

Após a nossa volta para São Paulo, a Karis logo não conseguia esconder o fato de estar passando mal novamente. Os sintomas gradualmente se intensificaram até que nós nos sentimos seriamente preocupados. Neste meio-tempo, Karis continuava a desfrutar da escola e das várias atividades na igreja e na vizinhança. Ela se lembra em particular as festas juninas, inclusive uma fogueira gostosa na rua, e o clube bíblico em nossa casa no qual participavam dúzias de crianças. Ela lembra algumas músicas que uma adolescente que morava conosco, chamada Raquel, cantava para ela quando estava doente. Conforme ela passava mais tempo mal, eu tive que parar algumas atividades minhas para ficar em casa e cuidar dela.

Eu não me conformava com esta nova fase de doença na vida da Karis. Com freqüência desafiava a Deus, perguntando porquê Ele estava permitindo isso, logo quando estávamos realmente criando raízes e desfrutando de nossa vida no Brasil. Tentei lembrar Deus que havia dedicado a Karis a Ele quando iniciamos esta aventura missionária. Afirmei que, já que havia mantido a Karis bem por seis anos, Ele com certeza poderia continuar! Implorei por alívio e cura. Chorei pelo sofrimento que Karis novamente suportava. Lembrei Deus da visão de nossa amiga Jan de que a Karis estaria bem com três anos de idade, e a maravilha de haver crido por seis anos no cumprimento daquela visão. Karis não podia estar doente de novo. Não fazia sentido.

Estas “conversas” com Deus na verdade eram monólogos, pois não consegui ouvir nada de Deus, e nem vi Ele fazendo coisa alguma para aliviar as dores da minha filha. Apesar de minha retórica apaixonada e os meus argumentos plausíveis, a saúde dela continuava piorando. Nos comunicamos com Dr. P em Detroit e seguimos todas as dicas que ele nos passava, mas nada ajudava.

Um dia a Karis veio conversar conosco, Bíblia na mão, e nos pediu seriamente para não mais pedir de Deus a cura dela. Ela havia lido capítulo 12 de 2 Coríntios, aonde Paulo relata que ele havia pedido três vezes que Deus tirasse um “espinho na carne” que o atormentava, mas a resposta de Deus foi “Não”. Karis nos disse que havíamos pedido múltiplas vezes pela cura dela e ela sentia que Deus estava dizendo “Não”. Ela nos pediu para interceder apenas para que ela tivesse coragem e forças para honrar a Deus em qualquer circunstância que lhe viesse. Sentindo-me admoestada, adotei esta petição para mim também. Sei que muitos outros continuaram (e continuam até o dia de hoje) a pedir pela cura da Karis, mas dentro de casa tentamos honrar os desejos dela. 2 Coríntios 12.9 ficou como lema na vida dela: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.

Navegando a quinta série, Karis passava mal com tanta freqüência que os professores arrumaram colchões e cobertores no chão na parte traseira da sala de aula para que ela pudesse deitar-se mas continuar presente nas aulas. Deram permissão também para que pudesse sair da sala a qualquer momento que precisasse sem interromper a instrução, pois muitas vezes ela precisava vomitar. Professores me contaram que às vezes ela saía correndo da sala de aula, vomitava no gramado, ficava um pouco para recompor-se, e voltava como se nada houvesse acontecido.

Esta disponibilidade da parte dos professores para acomodar as necessidades da Karis permitia que ela continuasse a participar e progredir na escola, e ficamos gratos por isso. Quando eu e a Karis discutíamos de manhã o bem-estar dela, Karis sempre queria ir para a escola e sempre se achava em condições para isso. Às vezes, deu certo; outras vezes, dentro de pouco eu recebia um telefonema da escola, “Por favor, venha buscar a Karis; ela não está bem”. Fiquei imensamente grata pela nossa casa, tão perto da escola que eu podia levar e buscá-la com facilidade. Sempre curiosa, Karis aprendia mesmo deitada no fundo da sala de aula com os olhos fechados. Sempre ficava triste quando não podia ficar.

Em 1994, planejamos viajar nos EUA por um período de três meses para visitar parentes, amigos e sustentadores. O primeiro compromisso que agendamos foi uma consulta com Dr. P em Detroit. Ele recomendou cirurgia, achando pelos exames que uma parte disfuncional do intestino estava atrapalhando o funcionamento do resto. Quando ele abriu a barriga dela, porém, ele descobriu que estava cheia de adesões devido às cirurgias prévias dela. Dr. P optou para apenas tirar as adesões, em vez de retirar a parte problemática do intestino. Karis desfrutou no hospital da visita do palhaço Lolly, que mais tarde tornou-se uma boa amiga da família e até mudou-se para o Brasil para ser professora na PACA! Uma vez que recebeu alta, Karis participou das atividades planejadas para nosso tempo nos EUA, mas com freqüência ela ficava sem energia e parecia ter os mesmos problemas intestinais que teve antes da cirurgia.

Aqueles meses nos EUA foram intensos para todos da família. Viajamos de um extremo do país para o outro, usando passes aéreas que por um só valor permitiam vôos ilimitados. Nossos filhos até se cansaram de andar de avião!

Aqueles que nós visitamos talvez se lembrem de nossa paixão pela Copa Mundial. Entre os missionários reunidos por duas semanas de reciclagem na sede de nossa missão, houve uma boa representação brasileira. Parece que exageramos um pouco no entusiasmo pelas vitórias da seleção brasileira, pois num almoço o presidente da missão (que morou por vários anos no Brasil), informou a todos que as cozinheiras haviam preparado um bolo especial para celebrar o sucesso do Brasil na Copa. Todos que moravam no Brasil ganharam os primeiros pedaços do bolo, decorado igual à bandeira do Brasil. Logo descobrimos que a parte verde era maionese colorida, a parte azul era pasta de dentes e a parte amarela era mostarda!

O ultimo vôo de nossas passes aéreas nos levou para uma reunião da família Kornfield na praia de Nova Jersey. Foi uma ótima chance para descansar um pouco antes de voltar para São Paulo, onde o semestre acadêmico já havia começado. A luta da Karis parecia a mesma do semestre anterior à nossa viagem. Conforme aproximava-se o fim do ano, mais preocupados ficamos. Resolvemos levá-la de volta para Detroit, aproveitando as férias de janeiro, mas não conseguimos achar vaga em nenhum vôo.

A família do irmão do David, que morava em Buenos Aires, passou as férias natalinas conosco, mas boa parte do tempo Karis ficava deitada no sofá, assistindo as brincadeiras das irmãs e primas. Na semana após o Natal, um amigo ligou que conheceu um oficial em uma das companhias aéreas, que conseguiu passagens para nós. Foi assim que no 6 de janeiro de 1995, deixando as outras crianças em São Paulo com David, eu e a Karis voltamos para Detroit e Dr. P fez a cirurgia originalmente planejada para junho de 1994. Desta vez, Karis recuperou-se logo. Lembramos o prazer da Karis em ver a neve e ela se lembra de dar uma maçã para um cavalo policial que ficou respingando no frio do lado da Ronald McDonald House. Karis precisava de tempo para ficar mais forte antes de voltarmos para o Brasil, então nos refugiamos na nova casa dos meus sogros, recém-chegados da Bolívia.

O nosso contato renovado com a comunidade médica dos EUA foi interessante. Acredito que foi a primeira vez que escutamos a diagnose de “Pseudo-obstrução Crônica Intestinal,” tomando o lugar de “hipoganglianose”, que foi o rótulo dado à Karis como recém-nascida em Chicago. Dr. P nos falou que talvez escutaríamos fofocas a respeito de transplantes de intestino, mas que não deveríamos prestar atenção, pois ele achava que esse tipo de transplante nunca daria certo.

Durante a cirurgia, Dr. P havia feito biópsias do sistema de digestão da Karis, do estômago até o fim do intestino que ainda lhe restava, para que pudesse fazer uma comparação com as biópsias feitas em Chicago quando Karis tinha cinco semanas de idade. Na consulta final antes de voltarmos para São Paulo, Dr. P nos contou os resultados: Não havia diferença significativa de número, formato ou condição dos nervos intestinais. Também não observaram diferença entre as biópsias da parte do intestino que retiraram e da parte que deixaram intato.

Era necessário uma mudança de perspectiva, Dr. P nos aconselhou. Ao invés de ficarmos frustrados e decepcionados quando a Karis passasse mal, deveríamos ficar surpresos e gratos a cada vez que ela ficasse bem. Na perspectiva dele, um intestino com nervos tão escassos e anormais simplesmente não deveria funcionar.

De volta em São Paulo, por vários meses ficamos verdadeiramente gratos, porque novamente, a Karis estava bem, em todos os sentidos da palavra. As águas amargas de 1994 ficaram doces, e virando a esquina em 1995, descobrimos as fontes e palmeiras de Elim, “. . . pois eu sou o Senhor que os cura”


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