18 ~ (27 Março—25 Agosto 2004)
A Confirmação da Aliança
Observação da Débora: Battle e Carol estiveram intimamente envolvidos na nossa vida, dia a dia, durante este período de tempo, então mandei o rascunho deste capítulo para Carol, pedindo seu ponto de vista. Ela escreveu um pouco de sua perspectiva, que eu inclui em azul como uma “segunda voz,” interagindo com o que eu escrevi.
Minha amiga Patrícia gosta de falar, “A graça de Deus antecipa a minha necessidade.”
Esta experiência—quando eu me trombo com Deus num momento de desespero, ou encontro algo que Ele fez, completamente desapercebido— sempre me surpreende. Como se eu esquecesse que Deus cuida de cada um, pessoalmente, até em relação às pequenas coisas que importam para nós. Eu me embaraço e me preocupo no que parece uma situação extremamente difícil, só para descobrir que a solução foi preparada por Deus, usando uma série de pessoas e eventos que só me alcançam no meu momento de crise. Isso não necessariamente significa que o alívio virá rapidamente, no meu modo linear de pensar. Mas, de repente, vem uma surpresa tão precisosa, tão maravilhosa, tão preparada especialmente para encaixar com a necessidade, que fico atônita, maravilhada mais uma vez pelo amor pessoal de Deus.
Nosso resgate do 7 North no dia 27 de março de 2004 foi um destes momentos mágicos.
Através de uma amiga de uma amiga de minha irmã, eu havia comunicado por e-mail uma vez previamente com Carol. Eu entendi (talvez erradamente) de Carol que eles não se encontravam em condições de oferecer mais que alguns dias de abrigo de uma vez (precisaríamos de seis meses no mínimo) e isso, somente com agendamento prévio (era impossível planejar o dia que a chamada do transplante viria). Eu respondi ao e-mail da Carol, agradecendo pela oferta mas ciente que não atingia nossas necessidades. Sentada em frente ao computador, estava prestes a deletar o e-mail da Carol (sou uma deletadora compulsiva).
Não. Estes eram amigos da minha irmã—talvez poderíamos conhecê-los algum dia? Então deixei o e-mail na minha caixa de correios “Pittsburgh.” E me esqueci da conversa. Continuei orando que Deus providenciasse moradia para mim e para a Karis em Pittsburgh, para que não precisássemos nos abrigar por meses numa casa ligada ao hospital.
(Carol) 5-fevereiro-04: “Battle—te mandei um extenso e-mail de Tina Lockett hoje cedo sobre uma família esperando um transplante raro. Por favor, vamos conversar sobre isso quando você tiver lido. Te amo... tchau.”
Minha próxima sessão de anúncios no rádio estava para começar, então a conversa com meu marido tinha que ser curto. O e-mail da Tina era uma coleção de e-mails referentes a uma jovem aluna de Notre Dame que brevemente necessitaria um transplante. Ela e sua família precisariam de moradia em Pittsburgh.
Por meses, eu havia orado sobre esta linda casa vitoriana que é o nosso lar. Battle e eu sabíamos que era um presente de Deus quando nos casamos a dez anos. Mas com meus filhos já crescidos e morando em outros lugares, a casa parecia grande demais para só nós dois.
Outro fator me puxava para vender a casa. Estava profundamente atribulada em relação a eventos ocorridos com minha mãe. Após seu derrame, dez meses antes, meu pai havia resovido que o hospital onde ela estava se reabilitando, a dez quarteirões da minha casa, se tornaria seu lar permanente. Comecei a visitá-la quase todos os dias. Observei muita transição de enfermeiros e algumas falhas sérias no cuidado dos idosos. Minhas observações preocupantes foram ignoradas pela família. Continuei ouvindo de vários dos meus irmãos que eu precisava me afastar um pouco. Sabia que para deixar de visitar minha mãe, teria que me distanciar geograficamente o suficiente para dificultar as viagens. Preocupada pelo bemestar da minha mãe mas odiando a tensão familiar, eu queria vender a casa e mudar para outra cidade. Continuei pedindo de Deus um sinal.
Aí abri o e-mail da Tina.
Depois de discussão e oração com Battle, mandei um e-mail para Débora no dia 19 de feveireiro, dizendo que gostaríamos de ajudar. Battle e eu já havíamos usado nosso recém-renovado terceiro andar para abrigar missionários e pastores que visitavam Pittsburgh. Concordamos que os Kornfields seriam uma boa família para ocupar esse espaço.
Quando me encontrei sem mais opções conhecidas, no quarto do hospital aquele dia depois que o transplante foi cancelado, enquanto a Karis dormia e várias pessoas esperavam para saber onde moraríamos em Pittsburgh para organizarem a entrega dos medicamentos necessários, de repente lembrei deste e-mail, de pessoas cujo nome eu havia esquecido. Amigos duma amiga da minha irmã . . .
Eu vasculhei nossa bagagem para encontrar meu computador, procurei pelos e-mails contidos na caixa postal “Pittsburgh” (agora cheia de múltiplos e-mails aleatórios) e, achando o recado da Carol, procurei um número de telefone. Não, mas havia um nome: Battle Brown. Poderia estar correto? Seria realmente seu nome, “batalha”?
No posto das enfermeiras, pedi uma agenda telefônica de Pittsburgh. E encontrei o nome--era verdadeiro: Brown, Battle. Ousava ligar? Como poderia ligar para pessoas completamente desconhecidas, sem qualquer aviso prévio? "Olá, você não me conhece, mas eu e minha filha poderíamos passar alguns dias na sua casa? Só até abrir algum espaço para nós na casa ligada ao hospital, o Ronald McDonald House?" No telefone, Carol me ouviu tentando contar minha história e disse, “Bem, me dê alguns minutos para pensar. Te ligarei.”
Foi o Battle que retornou a ligação, dando-me instruções para chegar na sua casa. Meu cérebro nebuloso por falta de sono, mal conseguia seguir suas palavras. Quando chegou uma pausa, eu disse, “Quando eu achar um taxi, você poderia explicar tudo isso ao motorista?”
“Ah, você está sem carro? Então, deixe-nos pensar. Te ligaremos de volta.”
Quando o telefone tocou novamente, era a Carol, explicando a lista de coisas que ela precisava fazer naquele dia e o horário que poderia encaixar um pulo para o hospital. Ela seria leitora no culto vespertino mas perderia o resto do culto para buscarmos a tempo para um jantar na igreja após o culto . . .
Informei a enfermeira que havia encontrado um endereço que poderiam dar à agência de saúde que entregaria os medicamentos: “É este aqui” (sublinhando com meu dedo o nome e o endereço na agenda telefônica).
Olhando para mim como se talvez tivesse pirado de vez ou houvesse escolhido um nome qualquer da agenda, ela tomou o livro, discou o número indicado, e perguntou à pessoa que atendeu, “Você conhece uma mulher chamada Débora Kornfield? . . . Ah, tá. Mas está disposto a abrigar sua filha? E receber os equipamentos e materiais médicos em sua casa? E registrar seu endereço como o endereço da família Kornfield em Pittsburgh?”
Battle e Carol não haviam sequer nos conhecido ainda.
Com múltiplas complicações, sendo um sábado, demorou para fechar os arranjos para a entrega dos medicamentos em casa, e a Karis teve que ficar internada mais uma noite. A Carol veio mesmo assim me buscar, com a bagagem que consegui arrastar até a entrada principal. Fomos à sua igreja, a poucos quilômetros do hospital, onde as pessoas estavam saboreando um rico jantar. Dentro de poucos minutos de conhecer a Carol, fui calorosamente recebida e convidada a comer com um grupo de novos amigos, que agiram como se fosse a coisa mais natural a Carol entrar com uma pessoa encontrada “na rua”.
Uma vez matada a fome, o sono me pegou. A Carol percebeu e me levou para casa, onde tombei numa cama incrivelmente confortável. Lembro vagamente que ela me perguntou o que gostaria de comer no café e se pela manhã gostaria de usar o carro do Battle para buscar a Karis no hospital para chegarmos ao culto matinal na igreja.
Igreja. Foi tão lindo—Deus estava tão Presente—que Karis e eu, sentadas do lado de Battle e Carol perto da frente, choramos durante a maior parte do culto. Uma pastora observou nossas lágrimas. No final do culto ela perguntou se queríamos que ela orasse por nós. Aquela oração selou nosso sentimento que, dum modo muito especial, havíamos encontrado uma família. Só mais tarde ficamos sabendo que esta “oradora” era Tina Lockett, a amiga da minha irmã, que inicialmente havia feito o contato com os Browns a nosso favor.
Battle e Carol nos levaram para casa, nos deram um lanche e nos mandaram descansar, convidando-nos para jantar mais tarde. Quando acordamos, eu e a Karis fizemos uma caminhada, conhecendo um pouco a vizinhança. O ar fresco de primavera ajudou para clarear nossas mentes da confusão dos eventos dos últimos dois dias. Jantando com Battle e Carol, finalmente começamos a nos conhecer melhor.
Cedo na próxima manhã, Ronald McDonlald House me notificou que abrira-se uma vaga para nós. Peguei o Battle saindo para trabalhar e lhe contei a notícia—poderíamos emprestar um carro para transportar nossas malas? Um olhar confuso veio ao seu rosto e ele disse, “O que tem a Ronald McDonald House que nós não temos? Vocês não querem continuar aqui?” Eu não compreendia bem o que ele estava dizendo, que ele e Carol haviam decidido permitir que morássemos em sua casa o tempo que fosse preciso. Enquanto eu ainda tentava absorver isso, ele partiu ao trabalho. (Carol trabalha muito cedo, então havia saído a várias horas.) Ainda não entendia exatamente o que estava acontecendo, mas liguei para RMH e cancelei nossa reserva.
Naquela tarde, Karis recebeu outra chamada de transplante! Notifiquei o David e nossa família. Carol estava em casa, mas precisava visitar sua mãe. Ela nos deixou no hospital e ligou para Battle no trabalho, que veio nos acompanhar na espera até a hora que a Karis entrasse na sala de cirurgia. Ele foi maravilhoso. Divertiu a Karis com histórias cômicas, leu passagens bíblicas e orou, até conversou com o cirurgião chefe, a quem já conhecia!
(Carol) Assistindo o que seriam incontáveis vigílias hospitalares durante as quais a Débora dificilmente deixava seu posto ao lado da cama da Karis, eu cria que Deus estava respondendo uma das minhas ardentes perguntas referentes à minha mãe. Uma tentativa falhada de adquirir ajuda dos meus irmãos no cuidado e nas visitas à Mamãe no pequeno quarto que se tornava seu lar, profundamente erodia minha confiança no modo que poderia servir. “Senhor, qual é meu papel? Qual é a minha responsabilidade nesta situação desafiante com minha mãe e o antagonismo que sinto da minha família em relação ao meu envolvimento no seu cuidado?”
Observando como a Débora cuidava da Karis, Deus parecia estar dizendo, “Venha ao lado da sua mãe nas coisas íntimas e diárias que ela precisará neste lugar. Leia a Palavra para ela e ore com ela.” Que alívio – ter meu propósito definido!! Disse a Battle, “Estou convencida que no terceiro andar temos mensageiras mandadas do céu.”
Às 22hrs quando levaram a Karis à sala de cirurgia, o Battle foi para casa, e eu me acomodei na sala de espera, já vazia, para começar minha vigília. Antecipavam uma cirurgia de 12-14 horas. Meu marido me ligou para dizer que conseguira um vôo em São Paulo e chegaria pela manhã. Minha irmã, Shari, ligou dizendo que ela e sua filha Elizabeth Joy haviam dirigido de Talahassee a Atlanta para pegar um vôo para Pittsburgh e deveriam chegar a 1h da manhã.
Passada mais ou menos uma hora, de repente um cirurgião entrou na sala de espera. “A cirurgia foi cancelada devido a um problema com o intestino doado.” Com a Karis já totalmente anestesiada, haviam instalado um cateter central, uma linha arterial e várias linhas periféricas. Prontos para fazer a primeira incisão, receberam um telefonema da equipe “colhendo” o órgão em Louisiana, pedindo que esperassem. Após discussão intensa, os cirurgiões decidiram não correr o risco de usar esse intestino.
Meu marido já havia partido do Brasil. Minha irmã e sobrinha logo chegariam da Flórida. E Karis estava voltando ao 7 North, sem transplante.
Essa experiência fortaleceu nossa confiança de que o transplante poderia acontecer qualquer dia. Duas chamadas no espaço de dois dias! Também, um recado chegou duma amiga no Brasil: ela cria que Deus havia lhe dito que o transplante aconteceria em março. Decidimos esperar durante os dois dias restantes em março para ver o que aconteceria. Aí decidiríamos o que fazer: levar a Karis de volta para a faculdade? continuar em Pittsburgh? partir para outro lugar??
Durante os próximos dias, Shari e EJ, que haviam morado próximo a Pittsburgh por vários anos, nos mostraram a cidade e apresentaram alguns amigos. Emily, amiga da EJ, levou a Karis a um grupo chamado Três Pregos, que rapidamente tornou-se uma segunda família para ela (se Ascension era sua primeira família de Pittsburgh) O apoio alegre e prático de Shari e EJ nos ajudou a recuperarmos do choque dos dois transplantes cancelados e começar a encontrar nosso caminho em meio à incerteza dos próximos passos. A visita do David permitiu que ele conhecesse Battle e Carol e visse onde moraríamos em Pittsburgh. David e eu não havíamos nos visto por quase dois meses.
A despeito da “profecia” de nossa amiga, as últimas horas de março passaram e abril chegou sem outra chamada de transplante. Mas Karis estava exausta, doente e demais atrasada nas classes para seriamente considerar um retorno à faculdade. Crendo que outro intestino poderia ficar disponível a qualquer momento, decidimos aceitar a oferta de hospitalidade dos Browns e continuar em Pittsburgh—sempre alertas para o próximo telefonema, sempre tentando planejar em avanço. Mandei um e-mail aos meus outros filhos, “O transplante poderá acontecer hoje, ou amanhã. Mais seis meses de recuperação nos levariam a outubro, então Karis retornaria à Notre Dame em janeiro. Parece que devemos pensar em passar o natal em Pittsburgh . . .”
Com a visita de Shari e EJ, os Browns perceberam logo que fazemos parte de uma família numerosa. A hospitalidade deles nunca falhou, não somente para nós mas, nos próximos meses, para muitos amigos e grande parte da família, vindo a Pittsburgh da Califórinia, do Colorado e de Connecticut, Iowa, Illinois e Indiana, Mexico e Michigan, Bolívia e Brasil, Washington, D.C., Alabama, Nova Jersey e Flórida. Cada um foi recebido calorosamente e oferecido cama e comida no lar dos Browns, e todos que vinham saíam abençoados.
“A graça de Deus antecede a minha necessidade . . .”
(Carol) “Mais visitantes! Agora sim! Havia esquecido como é maravilhosa uma casa verdadeiramente cheia. Não sei . . . talvez tem a ver com o fato de ser a primeira de doze filhos. Obrigada, Deus por esta família temporária que veio preencher o vazio até que o Senhor faça um milagre em mim e em minha própria família alienada.
Todas as vezes que acordei naquela linda cama confortável, agradeci a Deus pela gentileza dos Browns, e pedi a Deus que os recompensasse com as mais ricas bênçãos.
Revendo agora, é fácil perceber que Deus fez coisas boas durante os longos dias—que devagarinho se tornavam semanas, e meses—de espera. Viver aquilo, porém, não foi fácil para mim. Adoro o senso de órdem, de formular um plano e segui-lo. Mas só podia me preparar por poucas horas de cada vez, sabendo que até aqueles pequenos planos poderiam ser interrompidos se recebêssemos outra chamada de transplante ou se a Karis passasse mal ou se uma consulta médica demorasse mais do esperado (sempre demorava). Eu não estava em controle de quase nada.
Conforme passava um dia atrás do outro, o David e eu quebramos a cabeça tentando avaliar o que deveríamos fazer e como melhor cuidar da Valéria, nossa caçula com 16 anos. Deveria todo mundo mudar para Pittsburgh? Deveria o David tirar um sabático do trabalho dele no Brasil? Já que o David viajava tanto, deveria a Valéria morar comigo e a Karis em Pittsburgh? Mas ela estaria deixando para trás tudo que ela conhecia, e que tipo de vida ela teria num lugar estranho uma vez que a Karis fizesse o transplante e eu tivesse que me dedicar a ela? Ou talvez a Valéria deveria ficar com outra família nos EUA—talvez com primos—para ter mais estabilidade?
A Valéria sanou nossas dúvidas com uma decisão firme de ficar no Brasil. A próxima pergunta era, com quem ela deveria morar, sendo que o pai estaria fora a maior parte do tempo, viajando no Brasil ou visitando-nos em Pittsburgh. Minha inabilidade de estar com a Valéria era um dos aspectos da situação que mais me angustiava.
Decidimos que o David continuaria com o seu trabalho no Brasil e visitaria a Karis e a mim quando pudesse. Esta decisão nós reavaliamos com freqüência nos próximos meses e anos, mas sempre chegamos à mesma conclusão. A Valéria ficou com nossos queridos amigos Ted e Claudia durante a semana e virava de casa em casa nos fins de semana para participar com maior facilidade das atividades da igreja.
Deus fez tantas coisas boas. A mais importante era que a Karis pode descansar e viver num ritmo que conseguia acompanhar. Dentro de algumas semanas sem o estresse da faculdade, ela estava em melhores condições físicas e emocionais do que lembrávamos por muito tempo. Chegamos a perguntar se ela realmente precisava do transplante, mas os médicos se mantiveram firmes quanto a isso. Ela estava doente a metade do tempo, sem condições de sair de casa. Mas como em toda a vida, o momento que ela se sentisse melhor, estava pronta para uma aventura. Conhecemos os lugares charmosos de Pittsburgh e os parques estaduais próximos. Desenvolvemos amizades. Compramos uma bicicleta para ela no seu aniversário de 21 anos e um amigo me emprestou uma também, então desfrutamos das trilhas ao redor da cidade. A Karis conseguiu terminar as matérias incompletas da faculdade do segundo semestre de 2003. Começamos a sentirmos “em casa” em Pittsburgh, com uma rede de amizades que seria de valor incalculável nos tempos vindouros.
Eu pensei com freqüência do privilégio que era para mim ter este tempo com a Karis, relativamente livre de crises médicos e estresses alheios. A Karis é uma pessoa tão charmosa, curiosa e amigável que não poderia imaginar uma companheira-de-espera mais agradável. A esta altura, os cuidados médicos em casa—soro, NPT, medicamentos, exames de sangue semanais e consultas médicas—eram relativamente simples.
No final de maio, quando a Karis passou uma noite na UTI com febres altas e pressão muito baixa, conhecemos uma família brasileira cujo filho de dois anos acabava de ter um transplante. Desenvolvemos uma gostosa amizade com eles. Eventualmente conhecemos várias famílias brasileiras e nos ajudamos a matar as saudades. Eu traduzi boa parte das materiais de treinamento para as famílias de transplantados para o português, para facilitar a comunicação com o pessoal do hospital.
Apesar de tantas bênçãos, conforme o tempo de espera se prolongava, lutei com confusão e frustração. Será que estávamos no lugar errado, fazendo as coisas erradas? Teríamos saído da vontade de Deus? Estaria Ele tentando me ensinar ou me mostrar algo que não tinha cabeça para compreender?
Parecia-me que Deus havia sistematicamente me despido de quase tudo que em outro momento havia valorizado. A vida com a minha família no Brasil, o país que adotamos como nosso lar. A nossa casa, meus papeis “normais” de esposa e mãe, minha igreja e amigos. A parte que desenvolvera na equipe da missão, no ministério, na escola de nossos filhos. A certeza de quem eu era e no que deveria investir. Os prazeres pequenos, como tocar a flauta na equipe de louvor na igreja, jogar futebol com um grupo de mulheres as quintas-feiras à noite, apoiar os meus filhos nos seus jogos, concertos e teatros, ver Deus operando milagres nas vidas das pessoas através de orações de restauração da alma . . .
Lutei para manter o meu voto de louvar a Deus todo dia. Na verdade, havia muito motivo para agradecer, pois Deus supriu as nossas necessidades em Pittsburgh. Entretanto, às vezes eu era apenas obediente e não realmente grata. O ritmo de vida era muito mais relaxado do que estava acostumada no Brasil, mas viver graciosamente dentro de seus limites foi uma das coisas mais difíceis que jamais tentei. Em Pittsburgh eu me senti apenas uma extensão necessária da Karis. Tive que conformar-me com a perda daqueles dias em que curti outra “identidade” no Brasil: participando de conferências e seminários, aconselhando, liderando grupos pequenos, curtindo a posição de esposa de um líder no mundo cristão. Quem era “eu” sem tudo aquilo?
Uma manhã estava queixando-me a Deus e ele me respondeu claramente através do Salmo 37, com o que entendi como minhas “ordens de marcha” para Pittsburgh. Estas instruções me moldaram, me fortaleceram e me seguraram para a duração de nosso tempo lá. (Quem jamais adivinharia que seríamos hóspedes no terceiro andar do lar dos Browns por dois anos e meio?!!)
- Confie no Senhor (Ele é o Chefe; Ele tem propósito e plano, e os cumprirá).
- Faça o bem (oportunidades aparecem todos os dias).
- Habite na terra (seja participante da vida em Pittsburgh, não apenas visitante).
- Desfrute segurança (o que a família Brown e a Igreja Ascension têm provido por nós).
- Deleite-se no Senhor (tempo para oração, estudo, meditação, a delícia do louvor na Ascension).
- Entregue o seu caminho ao Senhor (deixe que Ele seja o Senhor! Escute a sua voz e segue-O).
- Descanse no Senhor (pare de resistir; aceite esta situação).
- Aguarde por Ele com paciência (a hora certa para Karis).
- Não se aborreça (não fique ansiosa; pelo contrário, interceda; faça o que puder).
- Espere no Senhor (por bênção na vida da Karis, da Valéria, do David, etc.).
- Dá com generosidade (tempo, serviço, intercessão, dinheiro, bens, assim como as pessoas têm dado tão generosamente a nós)
- Espere no Senhor e siga a sua vontade (disciplina; fidelidade em coisas pequenas).
(Carol) Confusão e tristeza sobre mudanças enormes no trabalho e na igreja, junto com a situação da minha mãe, me perseguiram a maior parte do tempo que Débora e Karis estiveram conosco. Comentei para uma amiga que a submissão delas a Deus era “resoluta e feroz.” Numa das minhas visitas para a Débora no terceiro andar, vi uma lista de 12 pontos segurada com ímã na geladeira. Estudei a lista e queria gritar, pois pontos 7-8-9 eram tãooooooo fora do meu alcance! “Descanse. Aguarde por Deus com paciência. Não se aborreça.” Impossível!! Sentindo-me um fracasso espiritual, ainda consegui pedir a Deus a sua misericórdia e socorro, o que talvez seja o melhor ponto de partida.
Em julho, a questão da moradia da Valéria para o próximo semestre tornou-se urgente. Pedi dela uma lista das três famílias que ela escolheria, em ordem de preferência, e contatei cada uma. Nenhuma das três pode acolhê-la. Em cima do início das aulas (4 de agosto), clamei a Deus bem especificamente pela sua ajuda. Veio a mente um nome, alguém que conheci apenas superficialmente, um casal jovem com um filho de dois anos. Para mim isto não fazia sentido. Pensei que a Valéria ficaria com uma de suas amigas.
Mas tive a crescente convicção que deveria pelo menos entrar em contato com este casal. Através de uma amiga mútua, consegui seu endereço de e-mail. E como você já adivinhou, por um tempo eles haviam pedido a Deus direção sobre como utilizar melhor a sua casa, que era grande demais para eles. Queriam abençoar alguém que precisava de um lar. Quando a Valéria mudou para a casa deles, não sabíamos que ela ficaria lá por dois anos (menos os dias a cada dois ou três meses em que o pai aparecia em São Paulo), curtindo o pequeno Ethan e até participando da adoção de um adorável neném brasileiro.
“A graça de Deus antecipa a minha necessidade.”
Passados quase cinco meses, no 14 de agosto a Karis recebeu uma chamada para transplante. Passamos por todo o processo pre-cirúrgico. Mas esta também foi cancelada.
No 24 de agosto, li um artigo num jornal a respeito de um menino que havia falecido na mesa de cirurgia. Meu coração encheu-se de medo, que virou pânico. Sabia que nunca mais poderia deixar a Karis entrar numa sala de cirurgia. Não consegui dormir, angustiando-me sobre o que faria quando viesse outra chamada para transplante. Eu queria arrancar a Karis da cama e fugir da cidade. Não queria nunca mais nem pensar em transplante.
Finalmente cochilei um pouco. Acordei de repente “ouvindo” uma voz que para mim parecia uma voz alta: “Levante-se, veste-se e vá à igreja.” O meu relógio disse 7:10. Eu sabia que a Ascension teve um culto às 7:00 nas quartas mas nunca havia participado. Acho que estou pirando de vez. Até chegar lá, o culto haverá se concluído.” Virei na cama e me acomodei de novo.
A voz veio com maior insistência: “Levante-se, veste-se e vá à igreja.” Tudo bem! Te ouvi! (Nossa, com certeza estou ficando louca. O estresse está me pegando . . .) Me vesti, escrevi um recado para a Karis, peguei o carro do Battle (ele ia para o seu trabalho de ônibus para que nós pudéssemos usar o seu carro) e dirigi o mais rápido possível para a igreja. Entrei a tempo para ouvir a última frase do sermão, “Não tenha medo.” E desabei em lágrimas.
Três horas após isso, veio a chamada para transplante. O transplante que de verdade aconteceu.
Eu não sabia o quanto mais significariam estas palavras, “Não tenha medo,” além de apenas, “Deixe a Karis entrar na sala de cirurgia.”
