19 ~ (25 de agosto de 2004—dezembro 2005)
O Altar de Holocaustos
“Suponhamos que Deus queira ensiná-lo a dizer: ‘Sei estar humilhado’ (Fp 4.11). Está pronto para ser oferecido dessa maneira? Está pronto a ser menos que um zero à esquerda—tão insignificante que nunca volte a ser lembrado em relação ao serviço que prestou? Está disposto a gastar e a ser gasto? Não ser servido mas servir? . . . cuidado para não se entregar à autopiedade quando o fogo começar.”
“Buscamos visões do céu, terremotos e trovões do poder de Deus, e nunca nos passa pela cabeça que Deus está o tempo todo presente nas coisas e nas pessoas comuns que nos cercam. Se cumprirmos o primeiro dever que está diante de nós, veremos a Deus . . . é nas coisas comuns que a divindade de Jesus Cristo se manifesta”
(Oswald Chambers, Tudo para Ele, 5, 6, 7 de fevereiro)
O transplante começou às 22:00h. Minha querida e cuidadosa amiga Débora fez vigília na sala de espera comigo. Nós ficamos com o pequeno Ricardo de 2 anos porque sua mãe precisava desesperadamente de uma boa noite de sono e para nós era fácil manusear os seus tubos de medicação e alimentação, soro e nutrição parenteral (NPT). Nós fizemos uma pequena cama para ele no canto da sala de espera. Enquanto os cirurgiões trabalhavam e o pequeno Ricardo dormia, Débora e eu montamos um lindo quebra-cabeça de um anjo com as suas asas cobrindo uma pequena criança. Isso era um símbolo visível daquilo que sabíamos estava de fato acontecendo na sala de cirurgia no final do corredor. Isso também nos deu algum conforto enquanto estávamos clamando pela família que havia doado o intestino de seu filho de 11 anos para a Karis, que tinha sido tirado deles de forma tão repentina e traumatizante.
Nós completamos o quebra-cabeça a tempo de alimentar o Ricardo através de seu tubo gástrico às 6:00 da manhã. Bea trouxe café da manhã suficiente para alimentar todos os amigos que ao amanhecer, apareceram na sala de espera. Nós comemos pensando no aniversário do Ted, o Ted que criou e administrou o website da Karis e foi o “tio” preferido no campo missionário para todas as nossas crianças. Megan e Emily foram ao encontro do nosso filho Daniel, que estava com um carro que havia emprestado quebrado há uma hora de Pittsburgh. Eles voltaram bem na hora de ouvir um dos cirurgiões, exausto mas triunfante, explicar o quão satisfeito eles estavam pelo bom resultado da cirurgia. O intestino doado estava perfeitamente saudável e o tamanho era perfeito para ela. Nós perguntamos como o intestino da Karis estava e ele falou que estava horrível e que estavam muito felizes de tirá-lo de dentro dela. Uma vez que Karis havia sido submetida à cirurgia bem e forte, os médicos esperavam que ela tivesse uma recuperação em tempo recorde.
A princípio, de fato parecia que Karis quebraria todos os recordes de recuperação de uma cirurgia de transplante. No final do primeiro dia, ela insistiu em tirar o tubo de respiração, e em três dias ela estava fora da UTI. Ela teve alguns episódios de rejeição, mas isso era esperado. Dentro de um tempo recorde de 5 semanas nós estávamos nos preparando para levá-la para casa. E por um final de semana nós realmente a tivemos em casa.
Na terça-feira nós a levamos de volta para o hospital para a sua primeira consulta e biopsia do seu novo intestino como paciente externo. Antes mesmo de chegarmos em casa, meu celular tocou. “Dê meia volta e traga Karis para o hospital. Ela está em rejeição novamente, mas não parece muito sério. Teremos que interná-la por alguns dias.”
Os esteróides não fizeram efeito.
Drogas mais fortes foram usadas. “As poderosas”
Nada.
Drogas ainda mais fortes. Aquelas que você só pode tomar por doze dias na sua vida inteira ou as próprias drogas o matarão.
Após onze dias parecia que as drogas estavam vencendo. O exame feito pela ileostomia parecia bem melhor.
Uma vez que a Karis estava se sentindo melhor, ela obteve permissão para sair do hospital para conhecer a exibição de plantas do outono no Conservatório de Plantas no Pittsburgh. O nível muito alto de imunossupressão a fez ficar muito vulnerável a um pequeno vírus chamado Legionella que contaminava o spray usado para regar as plantas e que a Karis respirou. Obviamente só soubemos disso após alguns dias.
Então o seu intestino começou a sangrar e ela sentiu-se muito mal, com absolutamente nenhuma energia ou apetite. Tina e eu a arrastamos para fora da cama dia 2 de novembro para votar nas eleições presidenciais, mas ela voltou imediatamente para cama. Então veio a tosse e a dificuldade de respirar...
A princípio ninguém sabia o que estava acontecendo. Ela estava em coma, num respirador na UTI, ficando visivelmente pior a cada minuto. Eles estavam fazendo tudo o que sabiam, mas nada estava funcionando. Ela foi transferida de um respirador normal para um oscilador, aquela máquina horrível que sacode o corpo inteiro enquanto força o oxigênio para dentro do pulmão. Após 24 horas desde o iníco dos problemas de respiração, havia apenas uma pequenina seção na parte superior de cada pulmão que não havia sido consumido pela infecção. Os médicos não nos deram nenhuma esperança. Eu sentei na sala de espera da UTI com o nosso pastor e planejamos o seu funeral. Ele também estava planejando o funeral da nossa amiga Martha, que havia morrido naquela semana. Nós ficamos discutindo como poderíamos administrar o tempo de tudo, para que as vidas de Martha e Karis pudessem ser devidamente celebradas.
Para entender melhor o milagre que Deus realizou, eu tenho que voltar um pouco e dizer mais sobre a história.
Devido ao fato da endoscopia feita na ileostomia não ter revelado a fonte do sangramento do intestino da Karis, na quarta-feira à noite, dia 3 de novembro ela foi submetida a uma tomografia computadorizada (TC) do abdomen. Na quinta-feira de manhã a Karis foi para a sala de cirurgia para receber uma anestesia geral enquanto eles introduziam um tubo através de sua garganta para poder visualizar o intestino na parte superior, um procedimento bem rápido. Na sala pre-operatória, o anestesista perguntou porque a Karis precisava de oxigênio. Ela explicou que durante a noite ela havia sentido dificuldade para respirar. Não parecia muito sério, mas ela estava mais confortável com o oxigênio. Eu beijei a Karis e a mandei para a sala cirúrgica, esperando vê-la novamente em aproximadamente uma hora.
Enquanto isso, um dos cirurgiões do transplante estava analisando os filmes da TC abdominal que foram realizados a noite anterior. Uma pequena porção dos pulmões da Karis foi “acidentalmente” incluído na TC. Dr. B notou algo que parecia ser alguns nódulos na parte inferior dos pulmões da Karis. Alarmado, pensando que parecia uma infeccção de fungus, ele ligou para o centro cirúrgico e solicitou que fizessem uma broncoscopia enquanto Karis estava anestesiada. Um especialista em pulmão foi chamado e eu fui intimada na sala de espera a assinar uma autorização para esse exame.
O pneumologista estava tão preocupado com o que ele viu que ao invés de acordá-la da anestesia, Karis foi levada diretamente do centro cirúrgico para um respirador na UTI. Amostras extraídas de seus pulmões foram enviadas para o laboratório para cultura. Até eles receberem os resultados, Karis foi tratada pelo que parecia mais provável, infeccção de fungus, juntamente com uma grande variedade de antibióticos, no caso de ser alguma outra coisa.
Era alguma outra coisa. Nada fazia efeito. Todos os antibióticos estavam errados, mas ninguém sabia por que. Dentro de poucas horas, Karis estava morrendo.
Assistentes sociais e o capelão do hospital foram chamados para dar apoio à nossa família. Uma sala de espera especial foi designada para o nosso uso. Nós não fomos mais permitidos estar na UTI com a Karis porque havia muita gente lá trabalhando freneticamente para salvar a sua vida. David estava no Brasil desesperado tentando achar um vôo para ele e Valéria. O Daniel chegou de Nova York e a Raquel de Wheaton. Uma sucessão de amigos da igreja fizeram uma escala para ficar conosco, orando e chorando, trazendo comida que ninguém tinha vontade de comer.
Na sexta-feira à tarde, o diretor de doenças infecciosas, Dr. G, veio à nossa sala de espera especial. “Eu tenho uma pequenina luz de esperança,” ele nos disse.
O organismo infeccioso foi identificado: Legionella, algo que ninguém jamais pensaria. Só foi identificado tão rapidamente porque o especialista do laboratório que foi designado para examinar as culturas da Karis, “por um acaso” havia feito a sua tese de doutorado em pesquisa do Legionella! Dr. G nos disse que ele achava que não havia outra pessoa no hospital que pudesse ter feito essa identificação.
Os médicos de doenças infecciosas estavam naquele momento consultando os especialistas do CDC e do hospital dos veteranos do exêrcito sobre como tratar a pneumonia, a qual agora podíamos de chamar de doença de Legionnaire. A questão no momento era de se os médicos da UTI poderiam manter Karis viva tempo suficiente para os antibióticos—os certos desta vez--fazerem efeito.
Dr. M, cirurgião líder do transplante, saiu da UTI e veio para a nossa sala de espera e orou conosco. Daniel e Raquel assumiram a vigília, insistindo que eu fosse para casa dormir. Não havia nada que eu pudesse fazer no hospital, e eu precisaria de um pouco de graça sobre mim mesma para o que viesse a acontecer. Amigos no Brasil resolveram a situação para que David e Valéria pudessem embarcar num avião na sexta à noite para chegar em Pittsburgh no sábado de manhã. Sem nenhum acesso a novidades enquanto estavam no vôo longo, eles não sabiam se Karis ainda estaria viva quando eles chegassem.
Como ela sobreviveu àquela noite, ninguém pode explicar. Os médicos da UTI nos disseram depois que ela foi a criança mais doente e que sobreviveu naquela UTI.
Claramente, Deus queria que a Karis vivesse. Se qualquer dessas situações houvesse sido diferente, ela teria morrido.
- TC, feito após o expediente, tarde da noite.
- A parte inferior do pulmão da Karis aparecer na TC.
- Endoscopia, que estava relacionado ao intestino, e não aos pulmões.
- O momento em que Dr. B estava revisando os resultados da TC, sendo possível fazer a broncoscopia juntamente com a endoscopia. Nos falaram mais tarde naquele mesmo dia que Karis não poderia ter tolerado a broncoscopia. A broncoscopia revelou o quão doente os seus pulmões estavam e a necessidade dela precisar usar a máquina de respiração, e possibilitou a retirada de amostra para cultura, o que levou para o uso dos antibióticos corretos.
- O fato de que a única pessoa que poderia identificar o Legionella no processo inicial estava de plantão e foi designado para a análise dos exames da Karis.
Aqui está algo muito interessante também: através de todos os horríveis pesadelos de coma da Karis, nos quais ela experimentou todo tipo de abuso possível, ela fala que sabia que não iria morrer. Para ela, na realidade da vida em coma, isso era certo, um fato.
Para nós, no “outro lado,” não existia esta certeza. Do lado do corpo inércio da Karis na UTI, no meio de todas as máquinas e as enfermeiras batalhando para normalizar os sinais vitais dela, eu lutei em oração, tentando compreender o que Deus estava fazendo. Este leito seria o altar no qual a vida terrena dela seria consumida? Profundamente comovida pelo sofrimento dela, vez traz vez eu a ofereci a Deus, dizendo com toda a capacidade que possuía, “Seja feita a Tua vontade”.
Num desses momentos, entrou Dr. M. Choquei tanto a ele como a mim mesma dizendo, “Deus quer que ela viva. Ela quer viver.” Acho que naquele momento o Dr. M, um homem de oração, compreendeu mais do que eu. Eu estava dizendo mais do que sabia.
Mesmo com os antibióticos fazendo efeito, ainda havia uma grande batalha à frente. De hora em hora Karis era avaliada para estabelecer se ela estava forte suficiente para passar por uma cirurgia para remover o intestino que havia sido transplantado. Os médicos do transplante explicavam que eles haviam parado a imunossupressão porque eles não poderiam salvar o seu intestino (o qual estava com uma aparência horrível na endoscopia de quinta de manhã) e a sua vida. Ela precisava do seu sistema imunológico de volta para ajudar a lutar contra o Legionella. Os médicos tiveram que identificar a estreita janela de tempo em que seus pulmões estavam fortes o suficiente para uma cirurgia deste tipo, mas antes que ela morresse de rejeição e infecção massiva do seu órgão transplantado.
